junho 09, 2005
INÊS PEDROSA
Há cerca de um ano (já!?...), aqui escrevi uma breve nota sobre a escritora Inês Pedrosa.
Transcrevo hoje o inspirado comentário de um visitante deste "blogue":
"INÊS PEDROSA
Fazem-me falta os teus escritos assim que os leio. Essa força das palavras é prodigiosa, consegues despoletar em mim novas sensações, cumplicidades de inquietação e o desejo perdido de me encontrar cada vez mais, no teu encontro literário e na desarrumação das gavetas cheias de palavras. Inês Pedrosa! A realidade é a força, derruba as convenções e invade os espaços individuais. Desta vez invadiste o meu... reconheço-te como uma grande escritora, porque as palavras ardem num diálogo póstumo, sem fronteiras.
A fronteira do pensamento é a morte, tu és imortal! Derrubas todos os muros, os muros da existência e numa folha escreves o meu desassossego, talvez o teu e tantos outros desta existência.
Neste local transitório, Inês, levo-te o conceito e a linguagem, ainda que nesta apatia me redima aos espelhos da resistência, num gesto apaziguador. Este é o meu nome, o consumo da realidade, em posteriores desejos, ainda que em dúvida permanente... assim, nesta simples homenagem de condição de génio que és, curvo-me para que todas as letras possam passar! Desculpa dizer-te isto, mas é urgente. Não me perguntes o porquê, apenas o estranho assiste a este desfile de partilhar contigo o que sinto, as minhas palavras.
No fogo da leitura, leio os teus escritos, estes e aqueles e digo: Falta me fazes! Que bom ler e reflectir sobre aquilo que escreves. Não entenderás, mas também não é para entender... gosto da tua escrita e nisto de dizer, diz-se... tu também dizes e continuarás a dizer nisso que escreves, nos teus romances, nesses e noutros escritos... as tuas crónicas. Parabéns! O teu rosto evoca outro sentido, entre tantos sentidos... Não é preciso agradecer, mas gosto das tuas conversas, do teu espírito filosófico que mais ninguém tem, entenda-se que és única, nisso que te faz ser o que aquilo que és.
Entre dedos surgem outros dedos, a cumplicidade literária, o imperdoável onde se naufraga numa intimidade furtada, num incêndio sem lugar, mas de todos os lugares.
Não posso mentir-te, desculpa dizer-te, ainda que não gostes, és uma grande escritora, do tamanho que tens, esse mesmo, tu és o padrão daquilo que és, cheia de atmosferas de todos os tempos… nesta infinidade de emoções que consegues fazer emergir e que guardas em ti, enquanto atenta observadora da sociedade. Inês, são os teus esporos...! Guardo o teu livro, na alma e advoga o Sol em minha protecção, com a promessa e o reflexo da duração que o teu nome concebeu, desde aquele dia."
Jorge Ferro Rosa
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março 10, 2005
"O SEGREDO DOS TEMPLÁRIOS" (VI)
“Mas isto não é surpreendente: não são muitas as vítimas de tortura que conseguem ranger os dentes e recusar concordar com as palavras que são postas na sua boca pelos carrascos. Mas, neste caso, há mais nesta história do que aquilo que é visível. Por um lado, tem havido sugestões de que todas as acusações apresentadas contra os Templários foram forjadas pelos que invejavam a sua riqueza e se sentiam exasperados pelo seu poder, e que essas acusações deram ao rei francês um bom pretexto para se libertar das suas conhecidas dificuldades económicas, apoderando-se da riqueza dos Templários. Por outro lado, embora as acusações possam não ser estritamente verdadeiras, há provas de que os Templários encontraram uma coisa misteriosa e talvez «secreta», no sentido ocultista. É evidente que estas duas ideias alternativas não se excluem mutuamente.
Muita tinta tem corrido sobre o debate das acusações feitas aos Templários e às suas confissões. Cometeram eles, de facto, os actos que confessaram ou os inquisidores inventaram, antecipadamente, as acusações e simplesmente torturaram os cavaleiros até que eles concordassem com elas? (Alguns cavaleiros declararam que lhes tinham dito que Jesus era um «falso profeta», por exemplo). É impossível afirmar uma coisa ou outra de forma conclusiva.
[…]
Nem todos os Templários foram aniquilados naquela sexta-feira, dia 13. A muitos foi-lhes permitido viver e voltar a reagrupar-se sob um nome diferente, e dois países, em particular, ofereceram refúgio seguro aos cavaleiros fugitivos – Escócia e Portugal. (Neste último, os cavaleiros tornaram-se conhecidos por Cavaleiros de Cristo).”
“O Segredo dos Templários – O Destino de Cristo”, Lynn Picknett e Clive Prince
Publicado por Leonel Vicente às 12:46 PM | Comentários (0)
março 09, 2005
"O SEGREDO DOS TEMPLÁRIOS" (V)
“Para começar, relativamente poucos Templários foram, de facto, executados, embora a maioria dos que foram presos fosse «sujeita a interrogatório» – um velho eufemismo para o sofrimento de torturas atrozes. Relativamente poucos Templários foram condenados à fogueira, embora o seu grão-mestre Jacques de Molay fosse queimado lentamente, até à morte, na Île de la Cite, à sombra da Catedral de Notre Dame em Paris. Dos milhares de outros Templários, apenas os que se recusaram a confessar ou se retractaram da sua confissão foram mortos. Mas que validade tinham as confissões arrancadas com ferros em brasa ou com instrumentos para esmagar os polegares? E que se esperava, exactamente, que eles confessassem?
Os relatos das confissões dos Templários são, no mínimo, coloridos. Ficamos a conhecer que veneravam um gato ou que se entregavam a orgias homossexuais como parte dos seus deveres de cavaleiros ou veneravam um demónio conhecido por Baphomet e/ou uma cabeça decepada. Também foram acusados de terem pisado e cuspido na cruz num rito de iniciação. Tudo isto, evidentemente, parecia tornar absurda a ideia de que eles eram dedicados cavaleiros de Cristo e defensores do ideal cristão, e quanto mais eram torturados mais aparente se tornava essa divergência.”
“O Segredo dos Templários – O Destino de Cristo”, Lynn Picknett e Clive Prince
Publicado por Leonel Vicente às 12:45 PM | Comentários (0)
março 08, 2005
"O SEGREDO DOS TEMPLÁRIOS" (IV)
“Apesar dos seus melhores esforços, a Terra Santa caiu em poder dos sarracenos, pouco a pouco, até que, em 1291, o último território cristão, a cidade de Acre, passou para mãos inimigas. Não havia nada que os Templários pudessem fazer para além de regressar à Europa e planear a sua eventual reconquista, mas, infelizmente, nessa altura a motivação para tal campanha já desaparecera entre os vários reis que a podiam ter financiado. A sua principal razão de existir reduzira-se a nada. Sem ocupação, mais ainda ricos e arrogantes, eram alvo de ressentimento generalizado porque estavam isentos de pagamento de impostos e apenas deviam obediência ao papa e a mais ninguém.
Assim, em 1307, inevitavelmente, caíram em desgraça. O poderosíssimo rei francês Filipe, o Belo, começou a orquestrar a queda dos Templários com a conivência do papa, o qual, em todo o caso, o rei dominava. Foram emitidas ordens secretas aos representantes aristocráticos do rei e os Templários foram capturados a 13 de Outubro de 1307, sexta-feira, presos, torturados e condenados à morte pelo fogo.
Pelo menos, esta é a história contada na maioria das obras clássicas sobre este tema. Fica-se com a ideia de que toda a ordem encontrou o seu horrível fim naquele dia longínquo em que os Templários foram efectivamente varridos da face da Terra para sempre. Contudo, nada pode estar mais longe da verdade.”
“O Segredo dos Templários – O Destino de Cristo”, Lynn Picknett e Clive Prince
Publicado por Leonel Vicente às 12:34 PM | Comentários (0)
março 07, 2005
"O SEGREDO DOS TEMPLÁRIOS" (III)
“A riqueza dos Templários, em parte, era resultante da sua regra: todos os novos membros tinham de entregar os seus bens à ordem, a qual também acumulou uma considerável fortuna através de enormes doações de terras e de dinheiro feitas por reis e nobres. Os cofres da ordem em breve transbordavam de dinheiro, não menos devido a terem adquirido uma impressionante astúcia financeira, cuja consequência foi transformá-los nos primeiros banqueiros internacionais, de cujo critério dependiam as taxas de crédito das outras instituições. Foi uma maneira segura de se instituírem como um poder importante. Num curto espaço de tempo, o seu título de «Cavaleiros Mendicantes» tornou-se uma profunda hipocrisia, apesar de os soldados rasos poderem ter continuado pobres.
Além da sua espantosa riqueza, os Templários eram famosos pela sua destreza e coragem em combate – por vezes, até ao ponto da loucura. Tinham regras específicas que regulamentavam a sua conduta como guerreiros, por exemplo, era proibido renderem-se, a não ser que as probabilidades em seu desfavor fossem superiores a três contra uma, e mesmo assim tinham de obter a aprovação do seu comandante. Eram os serviços especiais da sua época – uma força de elite, com Deus, e dinheiro, do seu lado.”
“O Segredo dos Templários – O Destino de Cristo”, Lynn Picknett e Clive Prince
Publicado por Leonel Vicente às 12:10 PM | Comentários (0)
março 04, 2005
"O SEGREDO DOS TEMPLÁRIOS" (II)
“Bernard foi, de facto, o autor da Regra dos Templários – que foi baseada na de Cister – e foi um dos seus protegidos quem, como papa Inocêncio II, declarou, em 1139, que os Cavaleiros apenas seriam responsáveis perante o papado a partir daquela data. Como as Ordens dos Templários e de Cister evoluíram em paralelo, pode discernir-se alguma coordenação deliberada entre elas – por exemplo, o suserano de Hugues de Payens, o conde de Champagne, doou a S. Bernardo as terras de Clairvaux, em que ele construiu o seu «império» monástico. E, de modo significativo, André de Montbard, um dos nove Cavaleiros fundadores, era tio de Bernardo. Tem sido sugerido que os Templários e os Cistercienses actuavam em conjunto, segundo um plano preestabelecido, para dominar a Cristandade, mas esse plano nunca teve êxito.
É difícil exagerar o prestígio e o poder financeiro dos Templários quando estavam no auge da sua influência na Europa. Dificilmente existia um centro importante de civilização onde eles não tivessem um preceptorado – como, por exemplo, a proliferação de topónimos, como Temple Fortune e Temple Bar (Londres) e Temple Meads (Bristol) em Inglaterra ainda mostra. Mas, à medida que o seu império se expandia, a sua arrogância aumentou e começou a envenenar as suas relações com os chefes de Estado temporais e também seculares.”
“O Segredo dos Templários – O Destino de Cristo”, Lynn Picknett e Clive Prince
Publicado por Leonel Vicente às 08:55 AM | Comentários (1)
março 03, 2005
"O SEGREDO DOS TEMPLÁRIOS" (I)
“Os factos principais relativamente aos Templários são simples. Oficialmente conhecidos por Ordem dos Cavaleiros Mendicantes do Templo de Salomão, foram organizados em 1118 pelo fidalgo francês Hugues de Payens, como escolta cavaleiresca dos peregrinos da Terra Santa. Inicialmente, foram apenas nove, durante os primeiros nove anos, depois a ordem expandiu-se e, em breve, estabeleceu-se como uma força a considerar, não apenas no Médio Oriente mas também em toda a Europa.
Após o reconhecimento da ordem, Hugues de Payens iniciou uma viagem europeia, solicitando terras e dinheiro à realeza e à nobreza. Em 1129, visitou a Inglaterra e fundou o primeiro centro templário daquele país, no lugar que é agora a Estação do Metropolitano de Holborn, em Londres.
Como todos os outros monges, os cavaleiros faziam votos de pobreza, castidade e obediência, mas viviam no mundo e do mundo e comprometiam-se a usar a espada, se necessário, contra os inimigos de Cristo – e a imagem dos Templários tornou-se inseparavelmente associada às cruzadas que foram empreendidas para expulsar os infiéis de Jerusalém e conservá-la cristã.
Foi em 1128 que o Concílio de Troyes reconheceu oficialmente os Templários como uma ordem religiosa e militar. O principal protagonista que esteve por detrás deste movimento foi Bernard de Clairvaux, o dirigente da Ordem de Cister, que, mais tarde, foi canonizado.”
[…]
“O Segredo dos Templários – O Destino de Cristo”, Lynn Picknett e Clive Prince
Publicado por Leonel Vicente às 08:50 AM | Comentários (0)
maio 14, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XX)
“Penetrando por acaso numa sala ainda não restaurada, ocupada com poucos móveis poeirentos, encontrei o chão repleto de caixotes de cartão.
Revistei-os ao acaso, e vieram parar-me às mãos restos de volumes em hebraico, presumivelmente do século XVII.
O que faziam os judeus em Tomar? O guia disse-me que os Cavaleiros mantinham boas relações com a comunidade judaica local.
Fez-me assomar à janela e mostrou-me um jardim à francesa, estruturado como um pequeno e elegante labirinto. Obra, disse-me ele, de um arquitecto judeu setecentista, Samuel Schwartz.
O segundo encontro em Jerusalém… E o primeiro no Castelo. … Se tivessem de marcar um primeiro lugar de reunião, o que poderiam escolher os Templários de Provins, mais habituados a dirigir capitanias que a ler romances de Távola Redonda?
Claro que era Tomar, o castelo dos Cavaleiros de Cristo, um lugar em que os sobreviventes da Ordem gozavam de plena liberdade, de garantias intocadas, e em que estavam em contacto com os agentes do segundo grupo!
Parti de Tomar e de Portugal com a mente em chamas.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:16 AM | Comentários (0)
maio 13, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XIX)
“Tive um sobressalto quando o nosso guia nos levou a visitar uma sala secundária, de tecto coberto em fechos de abóbada.
Eram pequenas rosetas, mas algumas tinham esculpidas uma cara barbuda e vagamente caprina. O Baphomet…
Descemos a uma cripta. Ao fim de sete degraus, uma pedra nua leva à abside, em que poderia aparecer um altar ou o cadeirão de um grão-mestre.
Mas chega-se, passando-se por baixo de sete fechos de abóbada, todos em forma de rosa e cada um maior que o anterior, e o último, mais expandido, por cima de um poço.
A cruz e a rosa, e num mosteiro templário, e numa sala certamente construída antes dos primeiros manifestos rosa-crucianos…
Fiz algumas perguntas ao guia, que sorriu: «Se soubesse quantos estudiosos de ciências ocultas vêm aqui em peregrinação…
Diz-se que esta era a sala da iniciação…».”
Publicado por Leonel Vicente às 08:20 AM | Comentários (0)
maio 12, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XVIII)
“Depois o nosso guia levou-nos a ver a janela manuelina, a janela por excelência, uma passagem, uma colagem de achados marinhos e submarinos, algas, conchas, âncoras, amarras e correntes, em celebração dos fastos dos Cavaleiros sobre os oceanos.
Mas dos dois lados da janela, a encerrar como que dentro de uma muralha de duas torres que a enquadravam, viam-se esculpidas as insígnias da Jarreteira.
O que estava a fazer o símbolo de uma ordem inglesa naquele mosteiro fortificado português? O guia não o soube dizer, mas pouco depois, de outro lado, creio que de noroeste, mostrou-nos as insígnias do Tosão de Ouro.
Eu não podia deixar de pensar no subtil jogo de alianças que ligava a Jarreteira ao Tosão de Ouro, este aos Argonautas, os Argonautas ao Graal, e o Graal aos Templários. Lembrava-me das efabulações de Ardenti e de algumas páginas encontradas nos manuscritos dos diabólicos…”
Publicado por Leonel Vicente às 08:27 AM | Comentários (0)
maio 11, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XVII)
“A longa e feliz existência de que aí tinham gozado fez com que o castelo tenha sido reconstruído e ampliado em diferentes séculos, pelo que à sua parte medieval se acrescentaram alas renascentistas e barrocas.
Comovi-me ao entrar na igreja dos Templários, com a sua rotina octogonal que reproduz a do Santo Sepulcro.
Encheu-me de curiosidade o facto de na igreja, conforme a zona, as cruzes templárias serem de forma diferente: era um problema que já me tinha levantado ao ver a confusa iconografia a elas relativa.
Enquanto a cruz dos cavaleiros de Malta havia permanecido mais ou menos a mesma, a templária parecia ter sofrido as influências do século ou da tradição oral.
É por isso que aos caçadores dos Templários basta encontrar seja onde for uma cruz qualquer para descobrirem uma pista dos Cavaleiros.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:45 AM | Comentários (0)
maio 10, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XVI)
“Passei três alegres noites com os velhos camaradas e, ao voltarmos de autocarro para Lisboa, surgiu uma discussão se se devia parar em Fátima ou em Tomar.
Tomar era o Castelo em que os Templários portugueses se tinham entricheirado após a benevolência do rei e do papa os ter salvo do processo e da ruína, transformando-os em Ordem dos Cavaleiros de Cristo.
Não podia perder um castelo dos Templários, e felizmente o resto da comitiva não era entusiasta de Fátima.
Se eu conseguia imaginar um castelo templário, assim era Tomar.
Sobe-se por uma estrada fortificada que bordeja os bastiões exteriores, de seteiras em forma de cruz, e respira-se uma atmosfera cruzada desde o primeiro instante.
Os Cavaleiros de Cristo tinham prosperado durante séculos naquele lugar: a tradição pretende que tanto o Infante D. Henrique como Cristóvão Colombo eram dos deles, e com efeito haviam-se dedicado à conquista dos mares – fazendo a riqueza de Portugal."
Publicado por Leonel Vicente às 08:12 AM | Comentários (0)
maio 07, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XV)
“Passam mais três anos, no fim chega-se a um acordo com o papa, e a 19 de Março de 1314, no adro de Notre-Dame, Molay é condenado à morte.
Ao ouvir esta sentença, Molay tem um acesso de dignidade. Tinha esperado que o papa lhe permitisse negar as culpas, sente-se traído. Sabe muito bem que se se retractar agora será ele também perjuro e reincidente. O que se passa no seu coração, ao fim de quase sete anos a aguardar julgamento? Encontra a coragem dos seus maiores? Decide que, já que se vê destruído, com a perspectiva de acabar os seus dias emparedado vivo e desonrado, mais vale enfrentar uma boa morte?
Protesta a inocência dele e dos seus irmãos. Os Templários cometeram um único crime, diz ele: por cobardia e vileza traíram o Templo. Ele não entrará no jogo.
…
Ao pôr do sol, Molay e Charnay são queimados. A tradição pretende que o grão-mestre antes de morrer profetizou a ruína dos seus perseguidores. Com efeito o papa, o rei e Nogaret morreriam em menos de um ano.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:12 AM | Comentários (0)
maio 06, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XIV)
“Golpe de teatro, e desta vez passa-se ao drama épico.
Em Abril de 1310 quinhentos e cinquenta Templários pedem para ser ouvidos em defesa da Ordem, denunciam as torturas a que tinham sido submetidos os confessos, negam e demonstram que são inconcebíveis todas as acusações.
Mas o rei e Nogaret sabem do seu ofício. Alguns Templários retractam-se? Melhor, então têm de ser considerados reincidentes e perjuros, ou então relapsos – terrível acusação naqueles tempos – porque negam obstinadamente o que já tinham admitido.
Pode-se até perdoar a quem confessa e se arrepende, mas não a quem não se arrepende porque renega a confissão e diz, com perjúrio, que não tem nada de que se possa arrepender.
Cinquenta e quatro retractantes perjuros são condenados à morte.
É fácil pensar na reacção psicológica dos outros presos. Quem confessa, fica vivo na cadeia, e enquanto há vida há esperança. Quem não confessa, ou pior, quem se retracta, vai para a fogueira.
Os quinhentos retractantes ainda vivos retractam-se da retractação. O cálculo dos arrependidos foi o que vingou, porque em 1312 os que não tinham confessado foram condenados a prisão perpétua enquanto os confessos foram perdoados."
Publicado por Leonel Vicente às 08:25 AM | Comentários (0)
maio 05, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XIII)
“…O papa acaba de obter com dificuldade, e finalmente, a custódia dos cavaleiros, que imediatamente restitui ao rei.
Nunca compreendi o que terá acontecido. Molay retracta-se das confissões prestadas, Clemente oferece-lhe a oportunidade de se defender e envia-lhe três cardeais para o interrogar.
Molay, a 26 de Novembro de 1309, assume uma desdenhosa defesa da Ordem e da sua pureza, chegando a ameaçar os acusadores, depois põem junto dele um enviado do rei, Guillaume de Plaisins, que ele julga seu amigo, recebe qualquer conselho obscuro e a 28 do mesmo mês presta um depoimento vago e timidíssimo, diz que é um cavaleiro pobre e sem cultura, e limita-se a indicar os méritos (agora remotos) do Templo, as esmolas que deu, o tributo de sangue pago na Terra Santa e assim por diante.
Para mais chega Nogaret, que recorda que o Templo teve contactos, mais que amigáveis, com Saladino: estamos na insinuação de um crime de alta traição.
As justificações de Molay são penosas, neste depoimento o homem, agora já calejado de dois anos de cárcere, parece um farrapo que se mostrou mesmo logo a seguir à prisão.
Num terceiro depoimento, em Março do ano seguinte, Molay adopta outra estratégia: não fala, e não falará senão diante do papa.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:33 AM | Comentários (0)
maio 04, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XII)
“Ora bem, o que respondem os acusados quando são postos perante estas afirmações?
Geoffroy de Charney, o que depois morrerá na fogueira com Molay, diz que sim, que lhe aconteceu, renegou Cristo, mas com a boca, não com o coração, e não se lembra se cuspiu ou não no crucifixo porque naquela noite fizeram as coisas à pressa.
Quanto ao beijo no traseiro, também lhe aconteceu, e ouviu o preceptor do Auvergne dizer que no fundo era melhor ter uniões com os irmãos que comprometer-se com uma mulher, mas ele contudo nunca cometeu pecados carnais com outros cavaleiros. Portanto, sim, mas era quase uma brincadeira, ninguém ligava muito a isso, os outros faziam-no, eu não, concordava só por educação.
Jacques de Molay, o grão-mestre, não o último do grupo, diz que quando lhe deram o crucifixo para lhe cuspir em cima, ele fingiu e cuspiu para o chão. Admite que as cerimónias de iniciação eram desse género, mas – imagine-se – ele não sabia dizê-lo com exactidão porque durante a sua carreira tinha iniciado pouquíssimos irmãos.
Outro diz que beijou o mestre, mas não no cu, só na boca, mas que o mestre o tinha beijado a ele no cu. Alguns confessam mais do que o necessário, não só renegavam Cristo como também afirmavam que era um criminoso, negavam a virgindade de Maria, no crucifixo até tinham urinado, não só no dia da sua iniciação, mas também durante a semana santa, não acreditavam nos sacramentos, não se limitavam a adorar o Baphomet, adoravam até o diabo sob a forma de gato.”
Publicado por Leonel Vicente às 12:00 PM | Comentários (1)
maio 03, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (XI)
“«Mas confessam o quê?», perguntou Belbo.
«Confessam exactamente aquilo que já estava escrito na ordem de prisão. Pouquíssimas variações nos depoimentos, pelo menos em França e na Itália.
Em contrapartida na Inglaterra, onde ninguém quis realmente processá-los, nos depoimentos aparecem as acusações canónicas, mas atribuídas a testemunhas alheias à Ordem, que falam só por ter ouvido dizer.
Em resumo, os Templários só confessam quando alguém quer que confessem e só aquilo que se quer que eles confessem.»
«Normal processo inquisitório. Já vimos muitos assim», observou Belbo.
«No entanto o comportamento dos acusados é muito estranho. Os pontos principais de acusação são que os cavaleiros durante os seus rituais de iniciação renegavam três vezes Cristo, cuspiam no crucifixo, eram desnudados e beijados in posteriori parte spine dorsi, quer dizer, no traseiro, no umbigo e depois na boca, in humane dignitatis oorobium; finalmente entregavam-se ao coito recíproco, diz o texto, uns com os outros. Uma orgia. Depois mostravam-lhes a cabeça de um ídolo barbudo, e eles tinham de adorá-la.»”
Publicado por Leonel Vicente às 08:17 AM | Comentários (0)
abril 30, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (X)
“A 14 de Setembro de 1307 o rei envia mensagens seladas a todos os bailios e senescais do reino, ordenando a prisão em massa dos Templários e a confiscação dos seus bens.
Entre o envio da ordem e a prisão, que se dá a 13 de Outubro, passa um mês. Os Templários não suspeitam de nada. Na manhã da prisão caem todos na rede e – outro enigma – rendem-se sem a menor resistência.
E note-se que nos dias anteriores os oficiais do rei, para terem a certeza de que nada fosse subtraído à confiscação, tinham feito uma espécie e recenseamento do património templário, em todo o território nacional, com pueris desculpas administrativas.
E os Templários nada, esteja à sua vontade bailio, procure onde quiser, como se estivesse em sua casa.
O papa, quando sabe da prisão, tenta um protesto, mas é já demasiado tarde, Os comissários reais já começaram a trabalhar a ferro e corda, e muitos cavaleiros, sob tortura, começaram a confessar.
Neste ponto não se pode deixar de passá-los aos inquisidores, os quais ainda não usam o fogo, mas não é preciso. Os confessos confirmam.
E é este o terceiro mistério: é verdade que houve tortura, e vigorosa, se trinta e seis cavaleiros morrem nos interrogatórios, mas destes homens de ferro, habituados a fazer frente ao cruel turco, nenhum faz frente aos bailios.
Em Paris, só quatro cavaleiros em cento e trinta e oito se recusam a confessar. Os outros confessam tudo, incluindo Jacques de Molay."
Publicado por Leonel Vicente às 08:05 AM | Comentários (0)
abril 29, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (IX)
“Só restava a calúnia, e aqui o rei tinha bom jogo. Boatos sobre os Templários, circulavam já há tempos.
Como seriam vistos estes “coloniais” pelos bons franceses, que só os viam andar à sua volta a cobrar décimas e sem darem nada em troco, nem sequer – agora – o seu próprio sangue de guardiões do Santo Sepulcro?
Franceses também, mas não completamente, quase pieds noirs ou, como se dizia na época, poulains. Se calhar ostentavam costumes exóticos, sabe-se lá se entre si não falariam a língua dos mouros, a que estavam habituados.
Eram, monges, mas davam espectáculo público dos seus costumes truculentos, e já anos antes o papa Inocêncio III tinha sido induzido a escrever uma bula. De insolentia Temploriorum.
Tinham feito voto de pobreza, mas apresentavam-se com o fausto de uma casta aristocrática, com a avidez das novas camadas mercantis, e com o atrevimento de um corpo de mosqueteiros.
É preciso pouco para se passar ao murmúrio alusivo: homossexuais, heréticos, idólatras que adoram uma cabeça barbuda que não se sabe donde virá, mas certamente não do panteão dos bons crentes, talvez partilhem dos segredos dos Ismaelitas, e negociem com os Assassinos do Velho da Montanha.
Filipe e os seus conselheiros de qualquer maneira tiraram partido destes boatos.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:00 AM | Comentários (0)
abril 28, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (VIII)
“Se não podes vencê-los, junta-te a eles.
Filipe pediu para ser nomeado Templário honorário. Resposta negativa. Ofensa que um rei não pode esquecer.
Então sugeriu ao papa que fundisse os Templários e os Hospitalários e pusesse a nova ordem sob o controlo de um dos seus filhos.
O grão-mestre do Templo, Jacques de Molay, veio com grande pompa de Chipre, onde agora residia como um monarca no exílio, e apresentou ao papa um memorial em que fingia analisar as vantagens, mas que na realidade evidenciava as desvantagens da fusão.
Impudicamente, Molay observava entre outras coisas que os Templários eram mais ricos que os Hospitalários, e que a fusão empobreceria uns para enriquecer os outros, o que seria de grave dano para as almas dos seus cavaleiros.
Molay venceu esta primeira partida do jogo que estava a começar, a prática foi arquivada.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:14 AM | Comentários (0)
abril 27, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (VII)
“Os Templários ficaram sem objectivo. Ou melhor, tinham transformado os meios em fins, administravam a sua enorme riqueza.
É natural que um rei centralizador como Filipe O Belo os visse com maus olhos.
Como se podia manter sob controlo uma ordem soberana?
O grão-mestre tinha a categoria de um príncipe de sangue, comandava um exército, administrava um património fundiário imenso, era eleito tal como o imperador, e tinha uma autoridade absoluta.
O tesouro francês não estava nas mãos do rei, mas sim era guardado no Templo de Paris. Os Templários eram os depositários, os procuradores e os administradores de uma conta-corrente formalmente em nome do rei.
Recebiam, pagavam, jogavam com os juros, comportavam-se como grande banco privado, mas com todos os privilégios e isenções de um banco de Estado… E o tesoureiro do rei era um Templário.
Pode-se reinar nestas condições?”
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abril 26, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (VI)
“Em 1291 São João de Acre é conquistada pelos mouros, todos os habitantes são imolados.
O reino cristão de Jerusalém acaba. Os Templários estão mais ricos, mais numerosos e mais poderosos que nunca mas, nascidos para combater na Terra Santa, na Terra Santa já não existem.
Vivem esplendidamente sepultados nas capitanias de toda a Europa e no Templo de Paris, e ainda sonham com a esplanada do Templo de Jerusalém nos tempos de glória, com a bela igreja de Santa Maria de Latrão cravejada de capelas votivas, bouquet de troféus, e um fervor de forjas, correarias, oficinas têxteis, celeiros, uma coudelaria de dois mil cavalos, um pulular de escudeiros, ajudantes, turcópolos, as cruzes vermelhas nos mantos brancos, as cotas escuras dos auxiliares, os enviados do sultão de grandes turbantes e elmos dourados, os peregrinos, uma encruzilhada de patrulhas e de estafetas, e a delícia dos cofres recheados, e o porto donde emanavam ordens e disposições e carregamentos para os castelos da mãe-pátria, das ilhas, das costas da Ásia Menor…
Tudo acabado, meus pobres Templários.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:15 AM | Comentários (0)
abril 23, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (V)
“Certo, inventaram o cheque, e antes dos banqueiros florentinos.
Portanto estão a perceber, entre doações, conquistas à mão armada e provisões sobre as operações financeiras os Templários transformam-se numa multinacional.
Para dirigir uma empresa deste género era precisa gente de cabeça. Gente que consiga convencer Inocêncio II a conceder-lhes privilégios excepcionais: a Ordem pode conservar todos os despojos de guerra, e onde quer que possua bens não responde perante o rei, nem perante os bispos ou perante o patriarca de Jerusalém, mas só perante o papa. Isentos em todo o lado das décimas, têm direito a impô-las eles mesmos sobre as terras que controlam…
Em resumo, é uma empresa sempre com activo em que ninguém pode meter o nariz. Compreende-se assim por que razão são mal vistos pelos bispos e reinantes, e no entanto não se pode passar sem eles.”
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abril 22, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (IV)
“O que dissemos diz respeito à tropa, mas a ordem desde os inícios tinha recebido doações enormes e pouco a pouco foi constituindo capitanias por toda a Europa.
Pensem que Afonso de Castela e de Aragão lhes oferece um país inteiro, ou antes, faz testamento a deixar-lhes o reino no caso de morrer sem herdeiros.
Os Templários não se fiam e fazem uma transacção, como que dizendo mais vale um pássaro na mão, mas este pássaro na mão são meia dúzia de fortalezas em Espanha.
O rei de Portugal doa-lhes uma floresta, como ainda estava ocupada pelos sarracenos os Templários lançam-se ao assalto; expulsam os mouros, e só para dar um exemplo fundam Coimbra. E são só episódios.
Em resumo, uma parte combate na Palestina, mas o grosso da ordem desenvolve-se na pátria.
E o que acontece? Que se alguém tiver de ir à Palestina e precisar de dinheiro lá, e não ousar viajar com jóias e ouro, deposita-os nos Templários em França, ou em Espanha ou na Itália, dão-lhe um recibo, e ele depois levanta-o no Oriente.”
Publicado por Leonel Vicente às 08:24 AM | Comentários (0)
abril 21, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (III)
“Sucede tudo com São Bernardo. Lembram-se de São Bernardo, não?
Grande organizador, reforma a ordem beneditina, elimina as decorações das igrejas, quando um colega o irrita, como Abelardo, ataca-o à McCarthy, e se pudesse mandava-o para a fogueira. Não podendo, manda queimar os seus livros.
Depois prega a cruzada, armemo-nos e partam…”.
“Bernardo intui logo que a ideia deve ser cultivada, e apoia aqueles nove aventureiros, transformando-os numa Militia Christi, digamos mesmo que os Templários, na sua versão heróica, os inventou ele.
Em 1128 convoca um concílio em Troyes precisamente para definir o que são aqueles novos monges-soldados, e alguns anos mais tarde escreve um elogio desta Milícia de Cristo, e prepara uma regra de setenta e dois artigos, divertida de ler porque mete de lá tudo.
Missa todos os dias, não devem conviver com cavaleiros excomungados, mas se um deles solicitar a admissão no Templo devem acolhê-lo de maneira cristã, e vêem assim que eu tinha razão quando falei de legião estrangeira.
Usarão mantos brancos, simples, sem peles, a menos que sejam de cordeiro ou de carneiro, proibido usar calçado recurvado e macio como está na moda, dorme-se em camisa e cuecas, um colchão, um lençol e um cobertor…”.
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abril 20, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (II)
“Não, quero dizer, a história todos a sabem.
Há a primeira Cruzada, está bem?
Godofredo, que do Jordão a areia tinha vista e de Deus a carne em si lavada, Balduíno torna-se o primeiro rei de Jerusalém.
Um reino cristão na Terra Santa. Mas uma coisa é manter Jerusalém, outra coisa o resto da Palestina, os sarracenos foram batidos mas não eliminados. A vida naquelas paragens não é fácil, nem para os novos instalados nem para os peregrinos.
E eis que em 1118, sob o reinado de Balduíno II, chegam nove personagens, guiadas por um certo Hugo de Payns, e constituem o primeiro núcleo de uma Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo: uma ordem monástica, mas com espada e armadura.
Os três votos clássicos, pobreza, castidade, obediência, mais o de defesa dos peregrinos.
O rei, o bispo, todos em Jerusalém dão logo ajudas em dinheiro, alojam-nos, instalam-nos nos claustros do velho Templo de Salomão.
E é assim que se transformam em Cavaleiros do Templo.”
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abril 19, 2004
UMBERTO ECO – O PÊNDULO DE FOUCAULT (I)
Quem foram os Templários?
“Primeiro você apresentou-os como sargentos de um filme de John Ford, depois como uns porcalhões, a seguir como cavaleiros de uma iluminura, depois ainda como banqueiros de Deus que faziam os seus negócios sujíssimos, depois também como um exército em debandada, mais tarde como adeptos de uma seita luciferiana, e finalmente como mártires do livre pensamento… Quem eram eles?”.
A história dos Templários é uma verdadeira epopeia!... Deixemos Umberto Eco contá-la, numa fabulosa narrativa, a partir de excertos de “O Pêndulo de Foucault”, a revisitar ao longo das próximas quatro semanas, incluindo uma "viagem ao Tomar Templário".
“Por razões quase casuais inscrevi-me num seminário de história medieval e escolhi uma tese sobre o processo dos Templários.
A história dos Templários tinha-me fascinado desde que pusera os olhos nos primeiros documentos. Naquela época em que se lutava contra o poder, indignava-me generosamente a história do processo, que só por indulgência se pode definir como indiciário, com que os Templários foram mandados para a fogueira.
Mas descobrira bem cedo que, desde que haviam sido mandados para a fogueira, uma multidão de caçadores de mistérios tinha vindo a procurar encontrá-los em toda a parte, e sem nunca apresentarem uma prova. Este desperdício visionário irritava a minha incredulidade, e decidi não perder tempo com os caçadores de mistérios, atendo-me só a fontes da época.
Os Templários eram uma ordem monástico-cavaleiresca, que existia na medida em que era reconhecida pela Igreja. Se a Igreja tinha dissolvido a Ordem, e fizera-o há sete séculos, os Templários já não podiam existir, e se existiam não eram Templários. Assim tinha feito uma lista de pelo menos cem livros, mas no fim acabei por não ler mais de uns trinta.”
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março 19, 2004
TEMPLÁRIOS (V)
"Do mesmo modo, foi criada em Portugal a Ordem Militar da Milícia de Cristo e os cavaleiros conservaram até o manto branco e a cruz vermelha do Templo. em 1321, a Ordem de Cristo contava mais de cento e sessenta comendas e todos os seus membros eram Templários portugueses ou franceses. Trinta e cinco anos mais tarde, a sede da nova ordem, primeiro fixada em Castro Marim, foi transferida para Tomar, na antiga comenda provincial portuguesa da Ordem do Templo.
[...]
Outros herdeiros oficiais: as ordens da Península Ibérica. Em Portugal, os Templários foram absolvidos e o rei D. Dinis, o Lavrador, enviou ao papa João XXII, sucessor de Clemente V, dois emissários para negociarem o renascimento da Ordem do Templo. Obteve ganho de causa e a Ordem ressuscitou ou, pelo menos, os Templários puderam entrar para uma nova ordem criada para eles, a dos cavaleiros de Cristo. Recuperaram todos os seus bens e, daí em diante, obedeceram à mesma regra monástica que os cavaleiros da Ordem de Calatrava. Continuaram a usar o manto branco com uma cruz vermelha.
[...]
Retomaram a luta contra os Mouros e, nessa actividade, conquistaram importantes territórios em África. Em breve dominaram as águas de Portugal e até mais além. Não esqueçamos que foi sob o seu pavilhão que D. Henrique, o Navegador, iniciou os Descobrimentos."
"Os Templários - Esses grandes senhores de mantos brancos", Michel Lamy, Editorial Notícias, pp. 248 e 262
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março 18, 2004
TEMPLÁRIOS (IV)
"Convém também referir Tomar. Infelizmente, foram efectuados melhoramentos depois da extinção da Ordem, mas os que se dedicaram às diferentes obras eram verdadeiramente «descendentes» dos Templários, dado que se tratava da Ordem dos Cavaleiros de Cristo.
A fortaleza de Tomar foi edificada por ordem de Gualdim Pais, Grão-Mestre da Ordem em Portugal. Facto curioso, depois da sua morte, em 1195, não foi enterrado na rotunda de Tomar, mas numa igreja da cidade baixa: Santa Maria do Olival.
A entrada e a saída são marcadas por poços, infelizmente aterrados em grande parte, hoje em dia. Uma outra igreja, com torre octogonal, tem o nome de São João Baptista. Na fachada, um baixo-relevo, que uma esfinge nos convida a observar atentamente, representa um cão que designa a constelação cuja estrela principal é Sirius, ou Sothys, para os orientais. Vemos também um leão que lembra a constelação e a sua estrela, Régulos. No centro, um «Graal», deverá ser relacionado com a constelação «a Taça». Estas figuras determinam um ângulo de 34 graus.
Ora, a constelação de Leão forma com a Taça e a estrela Sirius do Grande Cão um ângulo de 34 grau, à meia-noite verdadeira, a 20 de Janeiro.
Trata-se do dia em que se festeja S. Sebastião, aquele miliciano romano que foi trespassado com setas antes de ser... decapitado. Mais uma cabeça cortada. Ora, São Sebastião era um dos santos preferidos dos Templários."
"Os Templários - Esses grandes senhores de mantos brancos", Michel Lamy, Editorial Notícias, pp. 197 e 198
P. S. Passam hoje 690 anos sobre o desaparecimento do Grão-Mestre dos Templários, Jacques de Molay, conforme bem assinala o Almocreve das Petas.
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março 17, 2004
TEMPLÁRIOS (III)
"A esfera armilar, na famosa Janela do Capítulo, lá está para nos lembrar o papel dos Cavaleiros nas Descobertas, assim como o ângulo de 34º que encontramos nos vértices das fachadas das capelas góticas, que será o ângulo que a constelação de Cão Maior faz com a Taça (Graal) e com Leão, conforme representado no baixo-relevo da Igreja de S. João Baptista.
[...]
Mas parece inegável que os Templários e a Ordem de Cristo desempenharam um papel fundamental nos Descobrimentos Portugueses. Diz-se de D. Dinis, o grande defensor da continuação da Ordem, que estaria «iniciado» nos segredos templários...
[...]
O grande impulsionador das Descobertas foi D. João, mestre de Aviz, e sabemos que a Ordem de Aviz estava intimamente ligada a Calatrava e, portanto, ao Templo. Assim, também as primeiras caravelas ostentavam o pavilhão da Cruz de Cristo, e o Infante D. Henrique, se não era Mestre, era pelo menos governador da Ordem de Cristo."
"Os Templários - Esses grandes senhores de mantos brancos", Michel Lamy, Editorial Notícias, pp. 6 e 7 (Nota do Editor português)
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março 16, 2004
TEMPLÁRIOS (II)
"É em Tomar que encontramos uma maior concentração de bastiões da Ordem, contributos inestimáveis para o nosso património arquitectónico. É o caso do castelo de Tomar (também chamado dos Templários), que estaria unido por passagens subterrâneas à Igreja de São João Baptista (santo venerado pela Ordem, que nos seus templos e capelas conta com inúmeras representações de baphomets - cabeças degoladas) e à Igreja de Santa Maria do Olival, one Gualdim Pais foi sepultado. O seu túmulo, ao que se sabe, está vazio - mais um enigma para a constelação dos mistérios do Templo.
A arte gótica, segundo Michel Lamy, terá sido introduzida pelos Templários, que se associaram a mesteirais cagots, possuidores de segredos de construção e dos trabalhos em pedra (possíveis antecessores dos "pedreiros-livres" ou franco-mações). O estilo manuelino será, em Portugal, o herdeiro directo do gótico e o seu grande expoente é o Convento de Cristo, cripta da Ordem de Cristo, após se ter instalado por alguns anos em Castro Marim e ter regressado à original sede do Templo. Na charola do Convento de Cristo encontramos a disposição octogonal, fiel à cosmologia da época e representando o hemisfério celeste. Os Templários, e os seus herdeiros Cavaleiros de Cristo, teriam desenvolvido os conhecimentos de astrologia e astronomia (as duas ciências, como se sabe, eram indissociáveis) que lhes serviram para iniciar a aventura dos Descobrimentos."
"Os Templários - Esses grandes senhores de mantos brancos", Michel Lamy, Editorial Notícias, pp. 5 e 6 (Nota do editor português)
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março 15, 2004
TEMPLÁRIOS (I)
"Não se sabe ao certo se, entre os primeiros nove templários que foram a Jerusalém, um deles seria do Condado Portucalense: Gondomar (ou Gondemar?). Mas supõe-se que a presença da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo (mais tarde denominada por Ordem do Templo) em Portugal data de 1126, e sabe-se que os templários estavam solidamente implantados no país em 1157, quando foi nomeado Grão-Mestre Gualdim Pais, figura emblemática que comandou a reconquista de Santarém e Lisboa, ao lado de Martim Moniz. Em 1128, D. Teresa concedeu-lhes o castelo de Soure, e como recompensa dos seus feitos guerreiros, D. Afonso Henriques outorgar-lhes-á a cidade de Tomar, bem como as terras compreendidas entre Tomar e Santarém. Foi assim que o castelo de Almourol, contemplando todo o Tejo, entrou na posse da Ordem.
É também certo que a decisão papal de extinguir a Ordem não seria bem acolhida e, em 1311, D. Dinis ordenou o levantamento de um processo, que decorreu em Salamanca, para averiguar a culpabilidade dos templários da Península Ibéica. Os templários portugueses seriam ilibados. Logo depois, D. Dinis enviou ao papa João XXII dois emissários para negociarem o renascimento da Ordem do Templo. Surgiu a Ordem de Cristo, de que foi investido Grão-Mestre Gil Martins (em 15 de Março de 1319), e cujos cavaleiros usavam um hábito idêntico ao dos templários: apenas uma cruz branca inscrita dentro da cruz vermelha (para assinalar a pureza da instituição ressurgida) os distinguia. Os dignatários do Templo conservavam os sus lugares na nova Ordem, que alojou também muitos templários refugiados, de França e outras nações europeias."
"Os Templários - Esses grandes senhores de mantos brancos", Michel Lamy, Editorial Notícias, p. 5 (Nota do editor português)
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março 12, 2004
VIAGENS NA MINHA TERRA – ALMEIDA GARRET – A LENDA DE SANTA IRIA (V)
“Passaram mais três séculos e meio; e no ano de 1644 a Câmara de Santarém mandou refazer de cantaria lavrada o dito marco ou pedestal, que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da santa.
Ainda lá está, assaz mal cuidado contudo; lá o vi com estes olhos pecadores no corrente mês de Julho de 1843.
Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado havia muito, para um cantinho do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em seco, e em seco está todo o ano até começarem as cheias.
Tal é, em fidelíssimo resumo, a história da Santa Iria dos livros.
A das cantigas é, como já disse, muito outra e muito mais simples; conta-se em duas palavras. A santa está em casa de seus pais: um cavaleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada e inocente donzela, foge a todo o correr de seu cavalo, e chegando a um descampado dali muito longe, pretende fazer-lhe violência...
A santa resiste, ele mata-a.
Dali a anos passa por ai o indigno cavaleiro, vê uma linda ermida levantada no próprio sítio onde cometeu o crime, pergunta de que santa é, dizem-lhe que é de Santa Iria. Ele cai de joelhos a pedir perdão à santa, que lhe lança em rosto o seu pecado e o amaldiçoa.
E acabou a história.”
[…]
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março 11, 2004
VIAGENS NA MINHA TERRA – ALMEIDA GARRET – A LENDA DE SANTA IRIA (IV)
“Chegaram ao pé do túmulo, abriram-no, viram e tocaram o corpo da santa, mas não o puderam tirar, por mais diligências que fizeram.
Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar relíquias dos cabelos e da túnica, voltaram todos para a sua terra.
As águas tornaram a juntar-se e a correr como dantes, e nunca mais se abriram senão dai a seis séculos e meio, quando a boa rainha Santa Isabel, mulher del-rei D. Dinis, tão fervorosas orações fez ao pé do rio pedindo à santa que lhe aparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o mar Vermelho à voz de Moisés, dizem os devotos cronistas, e patenteou o bendito sepulcro.
Entrou a rainha a pé enxuto pelo rio dentro, seguida de seu real esposo e de toda a sua corte; mas por mais que rezasse ela, e que trabalhassem os outros com todas as forças humanas, não puderam abrir o túmulo; quebraram todas as ferramentas, era impossível.
Desenganado el-rei de que um poder sobre-humano não permitia que ele se abrisse, mandou a toda a pressa levantar um padrão muito alto sobre o mesmo túmulo, e tão alto que o rio na maior enchente o não pudesse cobrir.
O rio esperou com toda a paciência que os pedreiros acabassem e quando viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram-se a juntar as águas e o padrão ficou sobressaindo por cima delas.”
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março 10, 2004
VIAGENS NA MINHA TERRA – ALMEIDA GARRET – A LENDA DE SANTA IRIA (III)
“Costumava a devota donzela ir todas as noites a uma oculta lapa que jazia no fim da cerca e junto ao rio Nabão, para ali estar mais só com Deus, e desabafar com Ele à sua vontade.
Soube-o Britaldo, espreitou a ocasião e ali a fez apunhalar por um seu criado, cujo nome a legenda nos conservou para maior testemunho de verdade… chamava-se Banam.
Banam! é um verdadeiro nome de melodrama.
Morta a inocente, Banam despiu-lhe o habito e lançou o corpo ao rio, que depressa o levou às arrebatadas correntes do Zêzere em que desagua; e logo este ao Tejo - que defronte da antiga Escalabiscastro lhe deu sepultura em suas louras areias, para maior glória da santa e perpétua honra da nobilíssima vila que hoje tem o seu nome.
Mas enquanto ia navegando o corpo da santa, teve Célio, o abade do convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso; e comunicando-a logo aos monges e ao povo de Nabância, saiu com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegã fora, até chegar à Ribeira de Santarém.
Aí, benzendo as águas do rio, estas se retiraram corteses e deixaram ver o sepulcro que era de fino alabastro, obrado à maravilha pelas mãos dos anjos.”
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março 09, 2004
VIAGENS NA MINHA TERRA – ALMEIDA GARRET – A LENDA DE SANTA IRIA (II)
“Mas como o demo, em chegando a entrar num corpo humano, parece que não sai dele senão para se ir meter noutro, tão depressa o inimigo deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi encaixar em não menor personagem do que o monge Remígio, que era o mestre e director da bela Iria.
Arde o frade em concupiscência, e não obtendo nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se.
Disfarçou, porém, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando ela menos cuidava, uma bebida de sua diabólica preparação, que apenas a santa a havia tomado, lhe apareceram logo e continuaram a crescer todos os sinais da mais aparente maternidade.
Corre a fama do suposto estado da donzela, chovem as injúrias e os insultos dos que mais a tinham respeitado até então.
E Britaldo, que se julga escarnecido pela hipocrisia daquela mulher artificiosa, em vez de a esquecer com desprezo - sente reviver-lhe, se não tão pura, muito mais ardente, toda a antiga paixão.
Tão misterioso é o coração do homem! - tão vil! dirão os ascéticos - tão inexplicável! direi eu com os mais tolerantes.
Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A santa resiste a tudo, forte na sua virtude.”
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março 08, 2004
VIAGENS NA MINHA TERRA – ALMEIDA GARRET – A LENDA DE SANTA IRIA (I)
História de Santa Iria segundo os cronistas e segundo o romance popular.
A milagrosa Santa Iria - Santa Irene - que deu o seu nome a Santarém, donzela nobre, natural da antiga Nabância, e freira no convento duplex beneditino que pastoreava o santo abade Célio, floresceu pelos meados do sétimo século.
Namorou-se dela extremosamente o jovem Britaldo, filho do conde ou cônsul Castinaldo que governava aquelas terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, caiu enfermo de moléstia que nenhum físico acertava a conhecer, quanto mais a curar.
É sabido que a mais santa lhe não pesa de que estejam a morrer por ela; e, mais ou menos, sempre simpatiza com as vitimas que faz.
Santa Iria resolveu consolar o pobre Britaldo: e já que mais não podia por sua muita virtude, quis ver se lhe tirava aquela louca paixão e o convertia.
Saiu, uma bonita manhã, do seu convento - que não guardavam ainda as freiras tão absoluta e estreita clausura - e foi-se à casa do namorado Britaldo. Consolou como mulher e ralhou como santa, por fim, impondo-lhe na cabeça as lindas e benditas mãos, num instante o sarou de todo achaque do corpo; e se lhe não curou o da alma também, pelo menos lho adormentou, que parecia acabado.”
P. S. A Feira de Santa Iria (celebrada a 20 de Outubro) é uma das maiores celebrações populares na cidade de Tomar.
Publicado por Leonel Vicente às 08:01 AM | Comentários (0)