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junho 12, 2005

U. TOMAR - "CRÓNICAS DA HISTÓRIA" (II)

Crónica publicada em "A BOLA", em 17 de Fevereiro de 1969

"UNIÃO DE TOMAR, 0 - V. SETÚBAL, 0
A SUPERAÇÃO DOS LOCAIS

Estádio Municipal

Árbitro: António Florindo e Nemésio Castro, equipa da C. D. Lisboa.

U. TOMAR — Arsénio (3); Kiki (2), Caló (3), Faustino (3) e Barnabé (3); Ferreira Pinto «cap.» (3), Cláudio (1) e Totói (2); Lecas (1), Leitão (2) e Alberto (2).

Duas substituições, no segundo tempo: logo de entrada, Cláudio por Santos (2) e, aos 24 minutos, Lecas por Vicente (2).

V. SETÚBAL — Vital (3); Conceição «cap.» (3), Cardoso (2), Herculano (2) e Carriço (3); Vítor Baptista (2), Wagner (3) e Jacinto João (1); Guerreiro (1), Figueiredo (1) e Arcanjo (2).

Uma substituição, logo no início do segundo tempo: Figueiredo por Tomé (1).

Resultado: 0-0.

Jogo sem golos sugere espectáculo de relativo interesse mas não foi esse o caso verificado ontem, no atraente Estádio Municipal de Tomar onde nos disseram que não tarda a bem necessária cobertura dos camarotes pelo menos, pois o encontro além da emoção que o seu desfecho reflecte, conheceu períodos de futebol de apreciável craveira técnica e foi caracterizado, sobretudo, por uma correcção que muito nos apraz assinalar contribuindo tudo isso para esta primeira e bem curiosa presença dos tomarenses entre os «maiores».

Boa parte do muito público presente foi constituída por setubalenses, que a bela carreira do Vitória e o bonito começo do dia levaram à formosa cidade do Nabão em muitos automóveis e em perto de setenta autocarros (porque não havia mais disponíveis segundo nos informaram) e, se toda essa gente sadina regressou a Setúbal entristecida pelo resultado, ao invés dos tomarenses, que chegaram ao fim do jogo dando mostras de evidente satisfação, há que dizer que tal disparidade de sentimentos só pode atribuir-se à capacidade normal ao prestígio e aos anseios das duas equipas em cotejo, já que nem os sadinos podem lamentar-se de não terem alcançado o triunfo, nem os tomarenses tiveram na igualdade um prémio que não mereciam.

Com efeito, se é certo que nunca esteve em dúvida como não poderia estar a superioridade individual da turma vitoriana, não é menos exacto que muito bem souberam os tomarenses compensar e, por vezes, até, superar essa sua mais do que legítima desvantagem, mercê de uma determinação e de um sentido de colectivismo que superando a normal capacidade própria, frequentemente perturbou os categorizados adversários ou, pelo menos, os impediu de evidenciarem uma supremacia que, em jogo e em resultado, talvez, fosse de esperar.

Portanto, não se pense que, no empate de Tomar, houve menor inspiração do fortíssimo conjunto setubalense e nada mais. Ideia certa e justa será, sim, a de que o Vitória só não jogou mais e só não venceu porque a tanto se opôs, cremos que sensacionalmente, um União que realizou, apenas, a melhor de quantas exibições já lhe vimos fazer na temporada, e que foram, anteriormente, contra o mesmo Vitória, no Bonfim: contra a Cuf em Tomar, contra o Atlético, na Tapadinha, e contra o Belenenses, em Tomar.

E mais: não obstante o domínio territorial exercido pelos sadinos em quase todo o segundo tempo do encontro de ontem, os tomarenses estiveram longe de jogar «a defesa» antes formaram uma equipa que actuou de acordo com as circunstâncias de cada momento, isto é, defendendo e atacando conforme as possibilidades que, o antagonista e o próprio jogo lhe ofereceram. Sem dúvida de espécie alguma.

Menos credenciado, jogando em «casa» (e, para mais, em terreno pelado, que não pode deixar de oferecer maiores problemas para todos os actuais visitantes, por menos habituados) e sabendo que é no futebol raso e «trabalhado» que o Vitória tem o tipo de jogo com que se tem imposto e que melhor serve as características da quase totalidade dos seus magníficos jogadores, esperar-se-ia que os tomarenses se lançassem num futebol de pontapés largos e fortes, fazendo subir a bola e provocando, assim, um despique marcado por choques e cargas, com hipóteses de emperrarem o funcionamento normal da «máquina» setubalense.

Quem assim pensava (e nós confessamos, honestamente, que nos encontrávamos nesse número, com base no que havíamos visto aos nabantinos nos referidos jogos com a Cuf e com o Belenenses) cedo se certificou de que se enganara redondamente, pois o que se viu, logo desde o começo do encontro, foi os tomarenses enveredarem por processo de jogo semelhante ao dos sadinos, ou seja, fazerem baixar a bola e tentarem a progressão no terreno em passes tanto quanto possível curtos e frequentes.

Com isso, ganhou o espectáculo, evidentemente, e se bem que, aqui e acolá, fosse manifesta e natural a vantagem sadina, devido à reconhecida maior valia técnica das suas unidades, a verdade é que houve ataques alternados, com o perigo e registar-se numa e noutra balizas.

Ao longo de todo o primeiro tempo, pode o Vitória recordar e lamentar dois ou três lances em que faltou uma aragem de felicidade a remates de cabeça desferidos de muito perto, pelos seus dianteiros, especialmente, aquele em que Arcanjo, após bom trabalho de Figueiredo, executou um centro alto e largo e, sem ninguém a estorvar-lhe os movimentos, Guerreiro cabeceou ao lado do poste esquerdo.

Mas, em contrapartida, pertenceu a Vital a mais difícil das intervenções dos guarda-redes, em todo o desafio, quando teve de se lançar aos pés de Alberto, logo aos 3 minutos, e uma outra grande oportunidade de golo esteve ao alcance do mesmo Alberto, aos 25 minutos, quando se isolou, a passe de cabeça de Leitão, e visou o canto raso mais distante (o esquerdo), ficando Vital batido, mas saindo a bola a rasar a base de poste.

O Vitória, nos períodos de tempo em que dominou, fê-lo com mais insistência e maior autoridade, realmente, mas não conseguiu, ao contrário do que lhe é habitual, firmar vincada supremacia a meio do terreno, porque se Wagner esteve «em grande» e Vítor Baptista o acompanhou bem, já Jacinto João se mostrou infeliz (e, por isso, demasiado insistente) nos lances individuais de Totoi puderam ir compensando e disfarçando o menor rendimento de Cláudio, a acusar certa debilitação resultante da gripe que o reteve no leito até sexta-feira e, a partir de determinada altura, também afectado pelo que nos pareceu ser uma rotura muscular, na coxa esquerda.

Por tudo isso e, ainda, porque toda a sua defensiva se revelou muito decidida e coesa, os tomarenses não só nunca se inferiorizaram, verdadeiramente, como até conseguiram ser algo superiores ao rondar da meia hora, chegando, pois, ao intervalo com muito mérito e justiça na igualdade e deixando a pairar a dúvida, apenas, sobre o ponto a que chegaria a sua resistência física, no segundo tempo.

...Segundo tempo que, já se disse, foi caracterizado por um muito maior domínio territorial dos sadinos, que apenas permitiram espaçados movimentos atacantes dos tomarenses e tiveram o seu ascendente reflectido num elevado número de «cantos» por vezes, cedidos em momentos de grande apuro, pela defensiva de Tomar.

Mas, com Santos no lugar de Cláudio e, mais tarde, Vicente no de Lecas, puderam os nabantinos ir «segurando» o ascendente do Vitória, continuando a neutralizar, em boa dose, a sua acção a meio do campo e, sobretudo, «espartilhando-lhe» o ataque, onde Tomé (que rendera Figueiredo) e Guerreiro se mantiveram até por isso, em dia de menor inspiração do que se foi ressentindo, naturalmente, aos poucos Arcanjo (que tivera uma excelente primeira parte) e onde o perigo só se viu, de vez em quando, nos lances criados por Jacinto João, a entrar bem mais pela esquerda do que na metade inicial do jogo.

Mas, mesmo nesses lances, faltou sempre «qualquer coisa» ao «JJ» dos grandes dias e o União de Tomar, mantendo-se muito firme na defesa, nunca enjeitou os ensejos que se lhe depararam para contra-atacar não conseguindo, é certo, mais do que uma ocasião de «golo à vista»», em bola cruzada da esquerda e aliviada já perto da linha fatal, com Vital ultrapassado, mas também não permitindo que os dianteiros sadinos criassem uma única oportunidade flagrantemente desperdiçada.

No último quarto de hora, choveu com bastante intensidade, o que tornou o piso do terreno um tanto difícil. Ficou por se saber, no entanto, qual das equipas foi mais prejudicada pelo facto ainda que a lógica leve a pensar que foi a dos setubalenses, porque era aquela que, então, mais buscava a vitória que, na verdade, correspondia à imerecida derrota do União.

Há que repetir a afirmação já feita: foi esta a melhor das exibições que vimos fazer aos tomarenses.

Muita serenidade, muito discernimento, nada da fogosidade e do «descontrole» de outros dias. Calma semelhante, só a que lhe registámos e elogiámos, com inteira justificação, no jogo que lhe deu vitória na Tapadinha.

Desta vez, colectivismo foi a nota mais saliente da equipa, onde apenas Lecas e Cláudio (pelas razões expostas) estiveram um tanto abaixo dos companheiros.

Sem um único deslize, Arsénio igualou Caló, Faustino e Barnabé, numa defensiva que teve o mérito, nada acessível, de «segurar» um ataque da categoria do de Setúbal e onde Kiki só baixou um pouco, no segundo tempo, quando Jacinto João se adiantou mais.

Ferreira Pinto foi outro esteio da equipa, com especial relevo no primeiro tempo, mas o esforço de Totoi e de Alberto e a boa execução de Leitão (se bem que um pouco distante da «zona da verdade») também merecem referência tal como foi vantajosa a entrada de Vicente e Santos.

Desilusão, talvez, para boa parte do, público de Tomar, o Vitória não foi, para nós, mais do que vítima da inspiração do antagonista, um «pequeno pormenor» que muita gente nem sempre considera.

Foi um daqueles jogos em que tudo pode depender, apenas, de um golo que se marca. E, se os sadinos o conseguem, é bem possível que até acabassem em vencedores folgados.

Mas... e se o golo aparece ao contrário, como muito bem podia ter acontecido, na primeira parte?...

De uma coisa há que não acusar a turma sadina: falta de combatividade. De modo algum. Lutou muito e sempre bem. Pode ter acontecido apenas, que essa necessidade de lutar, aliada às nada favoráveis características do terreno, a impediram de jogar tanto quanto sabe.

Embora com pouco trabalho, Vital esteve firme e arejado, naquele lance aos Pés de Alberto, assim como Conceição e Carriço foram «laterais» mais seguros do que os «centrais», Cardoso e Herculano este, com a enorme atenuante de ter sido fustigado, recentemente, por rude golpe familiar, pelo qual jogou de braçadeira preta.

A meio do campo, tornou-se clara a ausência de José Maria, sendo Wagner o «maior», em nova manifestação de muita classe, enquanto Vítor Baptista apenas teve lampejos do seu grande valor, tal como «J. J.».

Na frente, Arcanjo realizou uma bola primeira parte mas acabou por ser «arrastado» pela menor inspiração dos seus companheiros de sector, Guerreiro, Figueiredo e, depois, Tomé.

Mesmo as grandes equipas, como é o caso do Vitória, estão sujeitas a estes percalços se é que pode chamar-se percalço a um empate. Em jogo sem problemas de maior, duas só palavras para a arbitragem do «trio» chefiado por Ilídio Cacho: muito bem."

CRUZ DOS SANTOS

Publicado por Leonel Vicente às junho 12, 2005 10:30 AM

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