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julho 17, 2005
U. TOMAR - "CRÓNICAS DA HISTÓRIA" (VII)
Crónica publicada em "A BOLA" em 1971
"BARREIRENSE, 3- UNIÃO DE TOMAR, 0
FARIAS FOI O «CARRASCO» DA TURMA DO NABÃO
Campo «D. Manuel de Melo», no Barreiro.
Árbitro: Maximino Afonso, Lisboa, auxiliado por Beirão Coelho (lado do peão») e Americo de Oliveira (sector das bancadas).
BARREIRENSE - Bento (2); Serra (1). Almeida (2), Bandeira (3) e Patrício (2); Mira (2), João Carlos, «cap.» (2) e José João (2); José Carlos (1), Serafim (2) e Farias (3).
Substituição: Aos 22 minutos do segundo tempo, Manuel de Oliveira ordenou a saída de José Carlos, passando a alinhar o ultramarino Pedro (1) há muito ausente dos campos de futebol.
U. TOMAR - Conhé (1); Kiki (2), João Carlos (2), Dui (2) e Carlos Pereba (2); Ferreira Pinto (2) e Manuel José (2), Vieira (1), Alberto (1), Tito (1) e Faustino, (cap.), (1).
Substituições: No início da segunda parte Vieira não apareceu, jogando nos tomarenses o jovem Raul (1); Cláudio (0) entrou aos 57 minutos, para o lugar de Faustino, passando Alberto a ser o «capitão» do União.
Ao intervalo: 2-0.
1-0, aos 9 minutos por Farias.
Lance de envolvimento pelo lado de Kiki tendo o «esférico» chegado a Farias, postado na frente de João Carlos e de Dui. O brasileiro executa uma série de «driblings», sem ser desarmado e, de repente arranca um formidável «tiro» do pé direito (o seu melhor...), entrando o esférico pelo lado esquerdo de Conhé.
Novo tento aos 42 minutos. Foi seu autor Serafim.
Infiltração de José João pelo lado direito da defesa tomarense e centro alto, que Conhé não defendeu e seria facílimo. O «aríete» do Barreirense aproveitou o brinde, com uma recarga à boca das redes.
Na segunda parte: 1-0.
Jogada veloz do lento Farias, um paradoxo, tendo Ferreira Pinto provocado falta, Farias marcou a grande área e com pontapé rasteiro, mas colocado, de novo funcionou o marcador. Resultado final: vitória no marcador, indiscutível do Barreirense por 3-0.
Quem assistisse apenas aos vinte minutos iniciais do encontro difícilmente poderia admitir que uma das turmas em campo ocupa um dos últimos lugares do «Nacional», quando o adversário está excelentemente colocado, muito perto dos melhores deste campeonato, tão cheio de surpresas.
A formação de Fernando Cabrita apresentou-se alegre e aparentemente moralizada para tentar um bom resultado (interessaria, pelo menos, um ponto...), praticando um futebol solto, variado e rápido na execução, embora se notasse falta, de poder ofensivo, para bater Bento à frente de um bom quarteto de defesas.
Exibindo-se numa concepção de jogo muito diferente, o conjunto de Manuel de Oliveira, teve presença e velocidade de pernas, para responder à toada franca e aberta do União, tendo Farias «avisado» que seria um perigo quando rematou, uma força, uma jogada de muita imaginação do barreirense. Havia três minutos de jogo.
No «onze» de Tomar a ideia seria marcar um tento, de efeitos psicológicos decisivos, mas a turma utilizou um processo que a condenou.
Jogar ao ataque, sem evasivas, convencidos os seus jogadores que de nada valeria um sistema de prudente defensiva, significou para o União uma outra contra-resposta, o «team» do Barreiro, em «casa» adoptou o mesmo critério e venceu.
Venceu porque houve uma diferença enorme, gritante e incontroversa, entre as duas linhas de ataque.
Enquanto a formação vencedora, mesmo com Farias, Serafim e José Carlos, teve esquemas, lúcidos e velozes, subtis e positivas, os vencidos, dispondo de Vieira, Alberto, Tito e Faustino, não criaram «suspenso» perto da baliza de Bento, rematando pouco.
Um jogador foi, no entanto, o grande «carrasco» do conjunto do Nabão, em futebol-jogado (até ao sector atacante) com fases de certo interesse.
Farias, um brasileiro «molengão» e de caprichos que se desmarcou muito para o flanco esquerdo, teve uma influência importantíssima no desfecho do encontro.
No primeiro golo, teve artes de reter o esférico, parecendo João Carlos e Rui hipnotizados, não integrando para rematar depois com um remate de grande espectáculo. Foi mesmo o brasileiro um jogador de acções positivas acções positivas. Na primeira parte marcou um tento, cabeceou, uma vez, por cima da barra e desenhou outro esquema de aplaudir, aos 44 minutos.
Nesta jogada, Farias veio atrás, recebeu a bola, lentamente a conduziu, e quando rematou fê-lo com um «estrondo», que bateria Conhé, passando o esférico perto do poste direito.
Com 2-0 no «placard» e o União a acreditar no 2-1, Farias, num «livre», não perdoou. Foi outra vez «carrasco» da turma do Nabão.
O União tem agora seis jogos para defender a sua permanência na I Divisão, com uma tarefa espantosa, se pensarmos no calendário: em «casa», jogará com o F.C. Porto, Benfica e Belenenses e nas deslocações terá de defrontar o Varzim, Guimarães e Académica.
Rui no sector da defesa, um «miolo» à base de Ferreira Pinto e Manuel José, sendo o ataque constituído por Vieira, Alberto, Tito e Faustino, este regressado a uma função que já conheceu há anos.
Fica na retina dos espectadores a capacidade de muitos jogadores, para exibirem os seus dons.
No jogo com o Barreirense notou-se que na estratégia do meio-campo houve um profundo equívoco: Ferreira Pinto e Manuel José tiveram esquemas de fina execução, o «colored» um momento para marcar (16 minutos) e o antigo belenense colaborou em muito lance vistoso com a bola nos pés.
Contudo, o futebol da «meia-cancha» exige mais que técnica...
Exige uma rápida recolocação, quando a equipa defende, não se deixando os defesas à mercê de um ataque como o do Barreirense, que num ápice, de «3» se transforma em «5» ou «6». Com a integração de Mira, João Carlos e José João ao lado dos outros avançados de base.
Exige um apoio total aos próprios atacantes, se se pretende um futebol ofensivo, ou lançamentos variados e profundos, se o processo for de contra-ataque.
Ontem, o duo Ferreira Pinto-Manuel José ficou-se em «nuances» de execução e teve pouca influência.
Ora, o futebol de meio-campo define um conjunto.
Sucedeu no Barreirense que a equipa teve talento criador, variedade de esquemas, ritmo, condição físico-atlética e moral constante, para chegar aos 3-0 e não pensar em mais golos... Pelo menos não os obteve.
No União com os tentos foi lógico e admissível que a formação se desunisse e acabasse com um futebol de pouco nível.
A equipa sentiu-se frustrada, com os 3-0, no seu subconsciente os jogadores devem ter admitido que tudo se malogrou e quem visse os trinta minutos finais do União diria: um «onze» despersonalizado vogando ao sabor do contendor, onde a defesa, não possui sentido de coesão e os homens da estratégia, isolados, fazem os seus números sendo o ataque muito inofensivo. Sempre este...
E, no entanto o técnico apercebeu-se de algo que não poderia competir com o Barreirense, se o «4-2-4» não se alterasse para um «4-3-3», mais elástico.
Saiu Vieira e entrou um novato, Raul, para uma tarefa dificílima competir com Ferreira Pinto e Manuel José em apoio, na frente dos «metediços» e experientes Mira, João Carlos e José João um trio sempre intencional.
Está o Barreirense de 1970 com uma categoria, que, lenta mas seguramente, evolui, para um futebol de maior expressão colectiva.
Nota-se, ainda, em certos futebolistas uma «recordação» da II Divisão, com pontapés à toa, para a frente, mas o «team» tem momentos de movimentação curiosa.
Nunca esteve em dúvida a vitória, um factor decisivo, numa turma que começa a convencer o público do Berreiro.
Futebol muito rápido e apoio, foi a síntese da turma que joga muito Para Farias, capaz de bons tentos se os defesas lhe permitem liberdade de acção.
Cem a entrada do extremo-esquerdo de seu nome Pedro um antigo elemento do F. C. Porto, muito conhecido, a formação melhorou em extensão de ataque, mas não aumentou o «score». Estava-se na fase de jogar por jogar.
Melhores: Bandeira, não pelo trabalho que teve, mas devido à execução demonstrada, num jogador realizado; João Carlos, à vontade como «centro-campista». José João activo e Mira, esclarecido.
0 «negão» Farias tem «fans» no Barreiro, mesmo nos lances sem categoria. Trata-se de um «omine» que é perigoso, nos golpes de cabeça (com força) ou «tiros» com o pé direito.
Serafim, mexido, Patrício, sem destoar, Madeira a impôr-se nos choques e Bento, tranquilo, não desmereceram. Serra actuou com energia e Pedro não brilhou (bem longe...) devido à falta do ritmo de competição. Naturalmente, tem uns quilos a mais, a habilidade de pés a mesma de sempre.
A gente de Tomar utilizou o sistema de jogar muito com a bola, pouco em desmarcações sem esférico e raro para a grande área do Barreirense.
Barreirense dificilmente, não por falta de preparação, pensa-se, muito por que psicológicamente o nervos levam a inibições com os tentos de Farias muito influente o terceiro, mais que o primeiro, na fase em que a equipa ainda pensava em jogar a baliza de Bento.
Não devemos fazer grandes referências pessoais, porque nem todos os Tomarenses desiludiram, alguns tiveram fases de maior inspiração e outros jogaram com pouco apoio. No ataque... e na defesa. A «ficha» do jogo diz tudo.
Excelente arbitragem
Teve grande nível o trabalho de Maximino Afonso, discutido quando o Barreirense apenas vencia por 1-0 e o União tinha pretensões.
Decisões acertadas, que não prejudicaram o Barreirense, porque as faltas eram mesmo do clube da «casa».
Autoridade e bons julgamentos na lei da vantagem, com nítida colaboração das «bandeirinhas». Os fora-de-jogo de Farias existiram mesmo, excepto um, mal assinalado pelo auxiliar do lado do «peão».
Certo o critério do árbitro no «caso» de jogadores magoados. O melhor, porque o árbitro deve-se aperceber quando o futebolista faz anti jogo ou está mesmo tocado. Bem, a ordenar os tratamentos fora do campo."
MÁRIO MACEDO
Publicado por Leonel Vicente às julho 17, 2005 10:30 AM
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