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julho 03, 2005

U. TOMAR - "CRÓNICAS DA HISTÓRIA" (V)

Crónica publicada em "A BOLA", em 2 de Fevereiro de 1970

"UNIÃO DE TOMAR, 1 - SP. BRAGA, 1
MERECIA MAIS DO QUE O PRIMEIRO PONTO «FORA»

Estádio Municipal de Tomar.

Árbitro: Adelino Antunes, auxiliado por Celso Melo e Martinho de Almeida, equipa da C. D. Lisboa.

U. TOMAR - Conhé (0); Kiki (1), Faustino, «capitão», (2). Ferreira Pinto (3) e Barnabé (2); Manuel José (2), João Carlos (1) e Luís Carlos (1): Tilo, Leitão (1) e Vieira (1).

SP. BRAGA - Armando, «capitão» Agostinho (2), Alípio (2), Leio (2) e José Manuel (2); Lua (2), Alfredo (2) e Fernando (2); Palmeira (3), Mário (3) e Rendeiro (2).

Substituições, todas no segundo tempo: logo de entrada, Luís Carlos por Alberto (2) e Alípio por Fernando II (2); aos 15 minutos, Faus (lesionado) por Dui (1) e Lua sobral (2).

Ao intervalo: 0-0.

No segundo tempo: 1-1.

Os bracarenses marcaram primeiro, por intermédio de MÁRIO, aos 5 minutos, no seguimento de um «livre», apontado por Lua, na direita.

Toda a defensiva tomarense ficou à espera não se sabe de quê. Mário teve tempo e espaço mais que suficiente para recolher a bola ajeitá-la e, à meia volta, rematar frouxo e cruzado. A incriminar os seus colegas pelas liberdades concedidas ao autor do golo, Conhé foi nitidamente mal batido, pois quase nem esboçou a defesa, apesar de o esférico passar perto de si e com pouca velocidade.

1-1, por ALBERTO, aos 15 minutos, rematando de cabeça uma bola vinda de «canto» apontado por Leitão, da esquerda. A jogada foi irregular pois Armando viu-se impedido de saltar para a bola, já que um adversário lhe puxou pela camisola, mas os seus veementes protestos, secundados por alguns companheiros, não resultaram junto do árbitro.

Resultado: 1-1.

Em Tomar, disputou-se ontem um desafio de grande importância, provavelmente, para a arrumação dos clubes no Campeonato, quanto aos últimos lugares, tão certo é que tomarenses e bracarenses se encontravam e encontram ameaçados para tão indesejáveis posições.

Por isso mesmo, surpreendeu-nos a «frieza» digamos assim, com que a equipa do União, salvo honrosas excepções, se bateu em quase todo o tempo, mais parecendo que o jogo tinha para si uma importância apenas relativa e não aspectos que, até certo ponto, pelo menos, poderiam considerar-se decisivos dado defrontar adversário nas mesmas circunstâncias, e para mais tendo-se verificado um empate (1-1) em Braga, na primeira «volta».

Em tal capítulo, os jogadores do União nem podem lamentar-se, no caso de ontem, do público porque se é verdade que ele não compareceu em grande número, para lhe prestar um apoio intenso e continuo, também é exacto que aqueles que compareceram não poucas vezes lançaram para o terreno brados de exortação, tentando «puxar» pela equipa, rumo ao necessário.

Foi a própria equipa, porém, que começou por fazer esfriar esse entusiasmo do seu público e acabou por o emudecer, até, quase por completo, porque, não jogar bem, é uma coisa, e não fazer tudo por isso, é outra, bem diferente e o que se viu foi uma estranha apatia, em diversos casos pessoais, acontecendo mesmo lances em que jogadores de posições-chave foram batidos e... se consideravam batidos, não voltando à disputa da bola com o entusiasmo e o «elan» próprio de quem quase joga em cada lance o muito complexo problema que é a descida de divisão de um clube de futebol profissional.

Sabemos que são duras estas nossas considerações e que até poderá haver quem vá melindrar-se com elas, mas entendemos que a única forma de se fazer Crítica honesta é não fugir a tais riscos e, aliás, frequentes vezes vimos esta nossa opinião corroborada no intervalo, durante e no fim do jogo, por diversos partidários do União que estabeleciam amargos confrontos entre a tal «frieza» observada, ontem, a muitos dos jogadores da equipa nabantina e o «querer» inexcedível, pelo que já sabíamos e ouvimos ontem, para eles manifestados, no domingo anterior, contra o Sporting.

Toda a gente sabe que o estado de espírito dos jogadores e reflexamente, das equipas é muitas vezes pautado pela «estatura» do antagonista de cada encontro, mas não há dúvida de que, ontem, vários dos futebolistas tomarenses abusaram, realmente na transmissão da ideia de que não sentiam a muita importância do jogo que disputavam.

Do lado bracarense, por sua vez, tudo se passou de modo diametralmente oposto. Não houve nenhum dos seus jogadores que, do primeiro ao último minuto, deixasse de se entregar ao duelo com tudo quanto tinha dentro de si e fazendo de cada lance, pois, um caso quase decisivo para o tal complexo problema que é a descida de Divisão de um clube de profissionais.

Só nisso, é evidente que já haveria vantagem para os bracarenses. Mas os bracarenses não se limitaram a ficar por ali. Embora denunciando, de entrada, um nervosismo próprio das responsabilidades do encontro, cedo entraram a manifestar uma organização global e um sentido de entreajuda bem superiores aos dos tomarenses, dentro de um sistema de trocas de bola rasa e de súbitas mudanças de velocidade e de flanco, quando já nas proximidades da grande área adversa.

Foi por tudo isso que, apesar de ter exercido maior domínio territorial (intenso, mesmo, após a igualdade) o União de Tomar nunca conseguiu ser tão perigosos como os minhotos. Faltou-lhe, além do arreganho do seu muito brioso antagonista, um igual sentido de colectivismo e um igual discernimento, na construção e na finalização do jogo.

De aí, considerarmos que o empate foi o mínimo prémio que o Sporting de Braga merecia, nesta sua bem importante deslocação ao terreno dos nabantinos.

Até porque...

Os tomarenses podem lamentar-se das circunstâncias em que, afinal, sofreram o único golo dos minhotos. Foi, na realidade um «frango» enorme do seu guarda-redes, depois de uma incompreensível paragem de toda a defesa que desde os 28 minutos do primeiro tempo, era constituída por Kiki, João Carlos, Faustino e Barnabé, devido à troca de posições entre João Carlos e Ferreira Pinto.

Mas, independentemente do facto de os bracarenses terem desfrutado de melhores ocasiões para marcar, ao longo do jogo todo, há que considerar o reverso da medalha. E esse reverso da medalha foi a flagrante irregularidade do golo dos tomarenses, pois só a infracção cometida sobre Armando (puxado pela camisola) terá impedido que o guarda-redes minhoto interceptasse o «canto» e evitasse, assim, que a bola chegasse à cabeça de Alberto.

Mais: a dois minutos do fim do encontro, Sobral viu-se derrubado, irregularmente, por Barnabé, dentro da grande área tomarense e o árbitro não considerou a infracção.

Ora oremos que estes dois factos não só anulam os tais motivos de lamentação dos tomarenses, como reforçam a nossa opinião de que o Sporting de Braga justificou plenamente a conquista do seu primeiro ponto em terreno alheio, neste campeonato.

Houve, pois, no União de Tomar, uma tarde de manifesto desacerto. Um desacerto quase colectivo, do qual apenas se salvaram Faustino, Barnabé, Manuel José, Alberto e, sobretudo Ferreira Pinto, que foi, de longe, o melhor, quer na defesa, quer depois, quando passou para o meio campo.

Esta permuta, aliás, constituiu uma das poucas notas positivas da equipa, o mesmo se podendo dizer da saída do brasileiro Luís Carlos, que se estreou e revelou bom toque de bola, mas denunciando uma naturalíssima falta de competição e, por isso, teve em Alberto (um jogador que «vai a todas» e que até marcou o golo...) um substituto de muito melhor rendimento.

Todos os restantes estiveram mal de mais e, em relação a Leitão, há que verberar-lhe a forma como reagiu, dentro dos primeiros vinte minutos, a «placagens» que lhe fizeram Alfredo e Alípio.

E o mesmo se poderá dizer de uma «entrada» de Manuel José a Mário, que teve de receber assistência fora do terreno.

Com um árbitro mais firme, em qualquer dos casos...

Sobre o Sporting de Braga pouco mais, há a acrescentar. Notável de espírito de luta e exemplarmente disciplinada, a equipa minhota não terá realizado uma grande exibição, nem isso poderia esperar-se-lhe, mas soube aproveitar-se bem das limitações adversas, para «jogar direitinho» e firmar uma superioridade colectiva que julgamos fora de qualquer dúvida.

Palmeira, pela sua habilidade e intencionalidade, e Mário, pelo seu inexcedível estoicismo, justificaram menção à parte.

Acompanharam-nos bem, no entanto, todos os restantes, dentro de uma igualdade francamente positiva se atendermos à importância do desafio.

Adelino Antunes, para estar na 1 Divisão, tem de valer bastante mais, com certeza, do que aquilo que mostrou ontem.

Apesar de disputado em terreno algo difícil. o jogo não lhe ofereceu grandes problemas. Mas eles bem podiam ter surgido, quer técnica, quer disciplinarmente, por culpa exclusiva do árbitro.

No primeiro caso, estiveram além de outros lapsos de menor monta, o golo dos tomarenses e o «penalty» não assinalado, a dois minutos do fim, no tal lance de derrube de Barnabé a Sobral.

No segundo caso, esteve a indiferença com que assistiu (sem uma palavra, sequer, para os prevaricadores) às duas mencionadas reacções de Leitão e à também já referida «entrada» de Manuel José a Mário.

Deste último lance, resultou, até, uma lesão para Fernando, pois Mário, depois de ter recebido assistência fora do terreno, voltou ao jogo com nítidos propósitos de tirar esforço e, logo no primeiro lance em que disputou a bola com Manuel José, atirou-o (com uma carga pelas costas) sobre Fernando, que ficou lesionado e estatelado de novo, para o árbitro errar, pois mandou seguir o jogo e só tardiamente o interrompeu, para que o jogador minhoto fosse, retirado do campo e assistido.

Apenas, «casos», pois, em prejuízo dos minhotos tal como amanhã poderá suceder em prejuízo dos tomarenses.

Simples coincidência ou propensão do árbitro para um «caseirismo» inadmissível?

Queremos acreditar na primeira hipótese..."

Publicado por Leonel Vicente às julho 3, 2005 09:41 AM

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